3.10.2011

Ativista de moradia encontrada morta em Varsóvia

Em 7 de março, descobrimos que uma dos membros mais ativos do movimento por moradia, Jolanta Brzeska, foi encontrada morta em um bosque. Seu corpo tinha sido queimado e ficado irreconhecível e não está claro se ela estava viva ou morta quando isso aconteceu.

Jola tinha 64 anos de idade. Ela foi umas das fundadoras da Associação de Moradoras(es) de Varsóvia, uma boa palestrante e uma ativista comprometida que ia a todas as manifestações, que impedia despejos e aconselhava outros(as) inquilinos(as). Ela estava envolvida em uma batalha com o mais notório senhorio de Varsóvia, Marek Mossokowski, e era a última inquilina restante de um imóvel valioso no momento de sua morte.

Jola vivia em um prédio que tinha sido moradia pública mas que foi privatizado. A área em que ela vivia era atraente para empresários, que construíram uma luxuosa moradia ao lado de seu prédio, onde os apartamentos custam 5.000 euros por metro quadrado. Sua provação começou em 27 de abril de 2006, quando um grupo de 10 pessoas bateu em sua porta. Foi assim que ela descobriu como seu apartamento, que era moradia pública, tinha caído em mãos privadas.

Este tipo de notícia chocante foi recebida por milhares de pessoas em Varsóvia já que é a política da cidade não informar à(ao) inquilina(o) quando compram a escritura de sua casa ou até mesmo informar que ela foi privatizada. Muitas pessoas, se não a maioria, fica sabendo disso depois do ocorrido[1].

Entre as pessoas deste grupo estava Marek Mossakowski, um empresário tão notório que até mesmo os arquitetos neoliberais da privatização o condenam. O passatempo de Mossakowski é comprar escrituras de imóveis. Há alguns anos atrás, era bastante difícil para pessoas que tinham casas antes da guerra ou suas descendentes retomarem a propriedade que foi comunalizada depois da guerra. É por isso que algumas pessoas com escrituras que não têm valor legal as estavam vendendo. Mossakowski é conhecido por ter comprado escrituras imobiliárias por 50 zloty (12,50 euros) de propriedades pelas quais mais tarde ele tentou conseguir 1,25 milhões de euros[2]. Ele adquiriu escrituras de muitas propriedades sob circunstâncias obscuras[3].

Este especulador é conhecido por suas táticas inescrupulosas para retirar as pessoas de seus apartamentos. Se elas não se assustarem com suas tentativas iniciais, frequentemente ilegais, de impor aluguéis gigantescos e "taxas" a elas, outros métodos têm início. No caso da casa de Jola, alguns dias depois desta visita inicial, as(os) moradoras(es) receberam uma carta. Nela ele alegava que, como a propriedade foi transferida, todas(os) eram habitantes "ilegais" do prédio. (Esta foi uma violação direta da lei que diz que, se ele quer chutar alguém para fora, teria que dar um aviso prévio de 3 anos, ou lhe dar uma moradia substituta). Já que ele considerava que estavam lá "ilegalmente", ele exigia que pagassem "danos" adicionais a ele, totalizando quase 500 euros por mês.

Jola sabia que isso era ilegal e se recusou a pagar. Como muitas pessoas em sua situação, seu aluguel agora era muito maior que sua renda. (Mais recentemente, ela recebia por volta de 350 euros por mês). Foi então que todo tipo de assédio começou. Mossakowski até tentou invadir sua casa e registrá-la como sendo o seu local de moradia.

Diferentemente de Jola, que não conseguiu um apartamento substituto da prefeitura, o milionário Mossakowski, dono de imóveis por todo o município, é inquilino de uma moradia municipal. (Ninguém sabe se ele realmente mora lá, mas ele tem o apartamento).

Apesar da prefeitura estar privatizando a moradia, ela raramente provém os(as) antigos(as) moradores(as) com apartamentos substitutos. (No ano passado, foram distribuídos apenas 90). Quando as pessoas estão em tal situação, a cidade olha para a sua renda e, como os critérios são baixos demais, muitas pessoas, mesmo aposentadas, não podem receber moradia pública. Os burocratas encarregados de destruírem o sistema de moradia pública procuram por qualquer razão para negar moradia, frequentemente quebrando todas as regras. No caso de Jola, lhe negaram o direito porque sua filha tinha um apartamento. Apesar disto não dever ter nenhuma influência, nós sabemos que a prefeitura às vezes diz para as pessoas que perderam seus apartamentos e se inscreveram para receber um substituto que elas podem viver com parentes - mesmo sendo em outras cidades.

Jola estava enfurecida com sua situação e decidiu contra-atacar. No movimento por moradia, ela lutou por uma mudança nessa política, para que outras pessoas não tivessem que passar pelo que ela estava passando.

Apesar do fato de seu caso ainda estar em julgamento, Mossakowski disse a ela lhe devia mais de 20.000 euros. No momento de sua morte, ela era a última inquilina remanescente naquela casa.

A filha de Jola relatou que ela tinha desaparecido em circunstâncias muito misteriosas. Depois de alguns dias lhe disseram que um corpo queimado foi encontrado no bosque na mesma data que Jola desapareceu. Ele estava irreconhecível, mas alguns objetos que ela tinha consigo não tinham sido destruídos, incluindo as chaves de sua casa, seus óculos e seu aparelho para surdez.

Ninguém sabe ao certo se a polícia tem interesse em investigar este caso. Apesar de tudo indicar que Jola foi assassinada de uma maneira incomumente brutal, a polícia tentou apresentar "teorias alternativas" como suicídio ou que talvez Jola fosse "membro de um culto". Não está claro se há algum motivo especial para estarem gerando estas "teorias alternativas".

Uma coisa é certa: as pessoas envolvidas no movimento por moradia culpam a situação da má política de moradia que deixa inquilinas(os) à mercê de especuladores e empresários inescrupulosos. Nós juramos não esquecer a provação de Jola e sua contribuição à luta que continuaremos com mais determinação do que nunca. Não perdoaremos, não esqueceremos!

ZSP-AIT Varsóvia

[1] É por isso que nós conseguimos e publicamos documentação compilada pela prefeitura e notificamos e reunimos aquelas(es) que podem ser afetadas(os).

[2] Veja: http://warszawa.gazeta.pl/warszawa/1,34889,7958665,Mial_tylko_50_zl__teraz_ma_kamienice.html#ixzz1G1OpNKlu

[3] Nós conseguimos pela primeira vez em Varsóvia bloquear uma tentiva ilegal de privatização. Mossakowski também esteve envolvido nessa estória.

http://zspwawa.blogspot.com/2011/03/housing-activist-found-dead-in-warsaw.html

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